Ele é o nosso melhor amigo! Na verdade, pode ser também um importante aliado: descubra o que deve ter um prontuário!

 


Será que é necessário mesmo fazer o prontuário psicológico ou ter outro registro documental do serviço que prestamos enquanto psicólogos? Sim. Não importa em qual área você trabalhe como psicólogo ou psicóloga, há a necessidade de registro do serviço que você presta. E a prioridade deste registro deve ser em forma de prontuário, aquele que não puder ser mantido assim, deverá ser mantido em forma de registro documental. 
A Resolução de número 001 do Conselho Federal de Psicologia em 2009 (CFP N° 001/2009)  dispõe sobre a obrigatoriedade do registro documental quando prestamos serviços psicológicos. Essa resolução ressalta a necessidade de contemplar de forma sucinta a assistência que prestamos, descrevendo esse serviço, a evolução do processo e os procedimentos técnico-científicos adotados no nosso exercício profissional.
As informações que estarão contidas aqui são úteis para a prática clínica, principalmente para psicólogos que atuam sozinhos, quando somente eles têm acesso ao prontuário dos seus pacientes, portanto, se você atua num contexto multiprofissional ou em outro âmbito lembre-se que é necessário exercitar outro tipo de raciocínio, considerando os princípios éticos e técnicos que norteiam a nossa prática em equipe multiprofissional.   
  • O que é o prontuário psicológico?
É um documento único, uma peça de natureza e valor científico, que contém informações sobre um paciente, devendo seguir os princípios que norteiam a escrita técnica de documentos elaborados por psicólogos. O prontuário tem a finalidade de registrar os cuidados profissionais prestados, arquivando em uma pasta de forma ordenada documentos e informações úteis sobre o paciente e o procedimento técnico científico adotado para tratá-lo, portanto, o prontuário contém informações úteis da prática da psicologia enquanto ciência. 
A escrita ou registro no prontuário deve seguir a ordem cronológica. Este documento deve ser organizado e estruturado, considerando a estética e a ética profissional . Devemos lembrar que a evolução do prontuário não é a mesma coisa da transcrição de sessão. Há que se ter um cuidado especial em não quebrar o sigilo no registro em prontuário, uma vez que tanto a resolução CFP 001/2009 quanto o nosso Código de Ética falam sobre a importância de registrar apenas as informações necessárias ao cumprimento dos objetivos do trabalho. Lembre que o prontuário é um documento que está sob a sua guarda, é você quem o protege e o guarda mas ele é do usuário do nosso serviço. 
  • Qual é a importância do prontuário?
O prontuário é valioso tanto para o psicólogo quanto para quem dele recebe atendimento. A resolução CFP 001/2009 diz que o registro documental do trabalho que realizamos "é instrumento útil à produção e ao acúmulo de conhecimento científico, à pesquisa, ao ensino, como meio de prova idônea para instruir processos disciplinares e à defesa legal."
  • Quais informações devem estar no prontuário?
O prontuário pode ser informatizado ou em papel e tem caráter sigiloso, deve ser mantido atualizado e organizado. Segundo o artigo 2º da resolução 001/2009 (os incisos 5 e 6 foram alterados posteriormente pela resolução CFP 005/2010)  "os documentos agrupados nos registros do trabalho realizado devem contemplar:
  1. identificação do usuário e/ou da instituição;
  1. avaliação da demanda e definição dos objetivos do trabalho;
  1. registro da evolução do trabalho de modo a permitir o conhecimento do mesmo e seu acompanhamento, bem como os procedimentos técnico-científicos adotados;
  1. registro de encaminhamento ou encerramento;
  1. cópias de outros documentos produzidos pelo psicólogo para o usuário/instituição do serviço de psicologia prestado, além do registro da data de emissão, finalidade e destinatário;
  1. documentos resultantes da aplicação de instrumentos de avaliação psicológica deverão ser arquivados em pasta de acesso exclusivo do psicólogo.
Quem guarda o prontuário é o psicólogo, é sua responsabilidade. O parágrafo único da resolução enfatiza a importância do sigilo na evolução e escrita do prontuário quando afirma que: "devem ser registradas apenas as informações necessárias ao cumprimento dos objetivos do trabalho."
Então todas essas questões devem ser levadas em consideração no momento em que estamos confeccionando os nossos prontuários. Afinal, o prontuário pode ser um poderoso aliado do nosso trabalho. Ele nos ajuda. 
Para mais esclarecimentos consulte:
  • Código de Ética Profissional do Psicólogo, Resolução CFP nº10/2005;
  • Resolução CFP nº 001/2009 que dispõe sobre a obrigatoriedade do registro documental decorrente da prestação de serviços psicológicos;
  • Resolução CFP nº 005/2010 que alterou a resolução CFP nº 001/2009;
  • Resolução CFP nº 006/2019 que institui regras para a elaboração de documentos escritos produzidos pela(o) psicóloga(o) no exercício profissional.
  • Imagem disponível em: freepik.com <a href='https://br.freepik.com/fotos/pessoas'>Pessoas foto criado por wayhomestudio - br.freepik.com</a> acesso em 19/06/2021.

Surfando brevemente em algumas ondas

Imagem: svetlanasokolva


Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) é um termo genérico utilizado frequentemente para descrever psicoterapias baseadas no modelo cognitivo comportamental que busca embasar cientificamente a prática psicoterápica. Atualmente a TCC tem sido utilizada como um termo “guarda chuva” que abriga um conjunto vasto de psicoterapias que consideram o elemento da cognição e integram o que chamamos de Terapias de Terceira Geração ou Terceira Onda das Terapias Comportamentais. 
No livro “Terapias Comportamentais de Terceira Geração: Guia para profissionais” Steven Hayes e Jacqueline Pistorello ressaltam a importância da psicologia baseada em evidências e o desenvolvimento da Terceira Geração da Terapia Cognitiva e Comportamental no Brasil e nos países de língua portuguesa caracterizando-a como sendo empírica, focada em princípios, sensível ao contexto e as funções dos fenômenos psicológicos. Existem várias psicoterapias de Terceira Onda, tais como: Terapia Comportamental Dialética (DBT), Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), Terapia Focada na Compaixão (CFT), Psicoterapia Analítico-funcional (FAP), Terapia Comportamental Integrativa de Casais (TCIC), Terapia dos Esquemas, Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness (MBCT), dentre outras...    
No artigo “Epistemologia da Terapia Cognitivo- Comportamental: casamento, amizade ou separação entre teorias” publicado pelo Boletim - Academia Paulista de Psicologia, os autores citam que a Terceira Onda da Terapia Cognitivo Comportamental sofre influência da Teoria da Complexidade  que trata-se de um ramo da filosofia da ciência que tem como representantes:  Edgar Morin, Isabelle Stengers e Ilya Prigogine.
Mas, se estamos vivenciando o advento da Terceira Onda, como aconteceu as duas primeiras?
A Primeira Geração foi iniciada a partir de um movimento contra as concepções clínicas que existiam na época, estudando o comportamento humano de forma objetiva e racional preocupando-se com o rigor científico, a partir disso, duas correntes comportamentalistas (neobehaviorismo e análise do comportamento) se uniram contra os paradigmas clínicos predominantes na época. 
Embora os trabalhos experimentais sobre aprendizagem tenham sido iniciados no começo do século XX foi somente na década de 1950 que a abordagem ganhou força. Nessa Primeira Geração é bom destacar o pioneirismo de Ivan Pavlov com o experimento com cachorros descrito para a explicação do condicionamento clássico. Além disso, nesse momento, outros psicólogos como Watson, Edward Thorndike, Edmund Jacobson (que estudava o relaxamento muscular que acabou dando base para o uso do relaxamento progressivo na Terapia Comportamental e Terapia Cognitivo-Comportamental), Skinner e seus esforços sobre o condicionamento operante, dentre outros.
A segunda geração ocorreu na década de 1960, junto com o que ficou conhecido como o “Advento da Revolução Cognitiva”, onde já se questionava o motivo de pessoas serem expostas aos mesmos eventos e terem reações e percepções completamente diferentes. A partir desse momento, a ciência psicológica básica passava a se basear não somente na aprendizagem, mas também no processamento da informação. Nessa época, a Terapia Comportamental tinha os seus procedimentos já bem estabelecidos, a exemplo da dessensibilização sistemática e economia de fichas.
Nessa segunda geração, a partir de dados relacionados às pesquisas sobre depressão, ele havia feito um experimento com pacientes depressivos e os resultados encontrados eram diferentes dos encontrados conceitualmente pela psicanálise, Aaron Beck percebeu que os pacientes se tornavam refém de um conjunto de distorções cognitivas , a partir disso, ele desenvolveu uma psicoterapia que visava a flexibilização desses pensamentos incluindo mudanças nas cognições mal adaptativas. Ele lançou o livro “Terapia Cognitiva da Depressão” lançando as bases da abordagem. 
Nesse momento, no contexto dessas abordagens há uma profunda mudança filosófica adotando como principal referencial filosófico o estoicismo tendo como representante Epicteto parafraseando-o “Nós não sofremos pelos fatos que acontecem em nossa vida, mas pela interpretação dos fatos que acontecem.” Com a realização de estudos e pesquisas que comprovam sua eficácia para o tratamento de uma variedade de transtornos psiquiátricos, o movimento da Segunda Onda foi ganhando cada vez mais força. Em 1990, a TCC se expandiu para diversos países e se tornou a força dominante em psicoterapia em quase todo o mundo.
Mas me conta, você se identifica com algum modelo de psicoterapia dessas três ondas?


O mundo é realmente justo?




Essa crença de que o mundo é justo, pode nos levar para "lugares" perigosos... Mas como assim?
Ora, vamos começar explicando por que acreditamos nisso. Ou pelo menos como a maioria de nós, acaba acreditando nisso. 
Depois que nascemos e vamos crescendo, vamos ouvindo dos nossos cuidadores, na maioria das vezes nossos pais ou professores, sobre as consequências que teremos que enfrentar se fizermos algo de errado. E isso é importante para entendermos as consequências das nossas atitudes. Para desenvolver a empatia e a prática das boas ações.
Só que ao longo da nossa vida isso vai sendo reforçado, de uma maneira que passamos a acreditar que fazer coisas boas é a única coisa necessária para não sofrer. Afinal, quem faz o que é bom recebe isso em troca. 
Mas daí, nós crescemos. E já na nossa juventude vamos percebendo que isso não acontece exatamente dessa maneira. Vemos crianças que sofrem, pessoas que são injustiçadas, famílias inteiras que sofrem, mesmo sem ter feito nada de errado e além disso também percebemos que em alguns casos tem gente que fez o mal, tramou algo com intencionalidade de prejudicar outra pessoa ou realmente prejudicou alguém "se dando bem" claro que a resposta a isso sempre é a revolta. Ora como pode aquela crença ser questionada? Como pode tamanha injustiça? Alguns inclusive começam a questionar a divindade, justificam que se Deus existe então por que essas coisas acontecem?
Talvez a grande questão aí seja essa crença num mundo justo. Na realidade, o mundo não é totalmente justo. O que percebemos encarando bem de frente a realidade dos fatos é que quando fazemos coisas boas aumentamos bastante a probabilidade de colhermos coisas boas. O contrário também é verdade, por que quando fazemos coisas que não deveríamos aumentamos a probabilidade de colhermos os frutos disso. Mas coisas boas e coisas ruins acontecem para todos. Todos nós seres humanos passamos por desafios, também vivemos alegrias, satisfação... Independente de "sermos merecedores" ou não.
A grande questão que fica aí é a seguinte: quais as consequências de levarmos a sério essa crença?
Vou destacar pelo menos duas, antagônicas, mas que podem ocorrer em decorrência dessa crença.
A primeira é a vontade de fazer a famosa "justiça com as nossas próprias mãos" e isso é perigoso. Inclusive por que podemos até mesmo nessa "sede de justiça" cometermos grandes injustiças. Você deve se lembrar do caso de uma mulher que há alguns anos atrás no nosso país foi acusada de sequestrar crianças... A consequência disso foi que uma grande multidão a matou. E depois a situação foi esclarecida, ela nunca havia cometido nenhum crime. Ou seja, em busca da justiça várias pessoas cometeram um crime e uma grande injustiça. Eu estou usando esse exemplo extremo, mas claro você mesmo deve saber de alguma outra situação.
A segunda consequência dessa crença é a vitimização. Por que algumas pessoas começam a acreditar também que "não tem o que fazer" já que coisas ruins podem acontecer mesmo fazendo coisas boas elas podem ser vítimas e sobre isso já falei aqui em outro texto, clique aqui para saber mais  sobre o texto citado.
Enfim, é interessante sempre revermos as nossas crenças. Flexibilizar, ajustar a realidade e quem sabe até escrever crenças novas para termos uma vida mais equilibrada, com maior satisfação.

Não se justifique

O ser humano é um ser social. Nós gostamos de pertencer em todas as etapas da nossa vida . A criança vai construindo a sua identidade, o ...